Parece que há mesmo um sentido
envolvendo tudo, sim.
Sinto isso.
Mas sinto mais...
não descobri ainda, em mim, esse como e o porquê...


domingo, 20 de março de 2011

O Pássaro e a Vidraça


Da sala de trabalho dava para ver um jardim cercado de cedrinhos muito verdes, aparados mais ou menos a um metro de altura circundando todo o prédio da administração da empresa. Entre os ramos, frequentemente encontrávamos ninhos de passarinhos, que faziam a alegria daqueles que os encontravam e se colocavam como tutores até que os filhotes ganhassem os ares.

Também era visível da janela, ao longe, a Serra da Cantareira, que aos poucos vai sendo asfixiada pela cidade que cresce sem parar. A paisagem ainda hoje é encantadora e cativante. A vista dali parecia facilitar o enfrentamento dos problemas e o estresse do trabalho das  horas da jornada.

Os vidros das esquadrias das janelas eram cobertos com um insulfilme que os transformavam  num espelho espião: quem estava na sala via tudo o que ocorria lá fora; quem estava lá fora, via apenas um espelho muito polido.

Acontecia quase todos os dias, nas primeiras horas, de eu ser assustado com o barulho de animosos pardais, bem-te-vis e outros pequenos pássaros que se chocavam abruptamente contra a vidraça-espelho. Viam, de longe, seu inimigo querendo tomar-lhes o território e atiravam-se com o bico afilado. Mesmo depois do choque, continuavam insistindo, saltitando, bicando, até que eu os espantava, levantando o vidro. Após alguns instantes, ei-los de volta com a mesma sanha, o que só manchava o vidro, mas os feria, lamentavelmente.

Mais de uma vez, circulando à volta do prédio, eu vi sob uma das janelas espelhadas, um pássaro morto, manchado de sangue. Com toda certeza, em decorrência do contra-ataque do seu inimigo virtual, que revidou a investida com a mesma intensidade.

No trabalho que eu exercia, dirigindo pessoas e processos administrativos, o mais comum era ter que ouvir, compartilhar problemas pessoais, íntimos e familiares, de toda ordem. Eles interferiam de tal sorte nas suas vidas, que não conseguiam estar completamente presentes do trabalho. Só o corpo estava. A mente e as emoções sempre estavam noutros lugares, onde os conflitos estacionavam.

Nessas ocasiões conseguia perceber quantos de nós vivemos imitando aqueles pássaros de que falei: Enxergamos inimigos, combatemos com ele, somos subjugados por ele, sem perceber que são nossos reflexos, erros e imperfeições que revidam nessa batalha que travamos e que pode durar uma vida inteira, quando não saímos de dentro de nós.    

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Eu pensava as bicadas na janela, os toc, toc, toc, toc... eram apenas para me despertar ou ele pedindo para entrar.

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  3. Mas como eu disse, ele combatia um inimigo que era o reflexo de si mesmo, sua agressividade e a incompreensão de seus limites.
    Hugs!

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